O ROI em saúde tem um problema que ninguém conta: uma gaveta cheia de resultados ruins (e que não são vistos)

Por Ana Luísa G. Coelho Seleme

ROI é uma das palavras mais usadas, e mais mal utilizadas, no mundo corporativo.

Toda decisão de investimento passa por essa pergunta: “quanto isso vai retornar?”. Faz sentido. Recursos são finitos e alguém precisa justificar o orçamento.

O problema é que ROI também é uma das métricas mais difíceis de chegar e pode deixar algumas informações importantes de fora, inclusive por quem está calculando.

Isso fica particularmente evidente quando o assunto são linhas de cuidado em saúde.

Um artigo científico recente chamou atenção para um viés metodológico que raramente discutimos: o “file-drawer problem” (ou problema da gaveta de arquivos).

A lógica é simples: estudos com resultados favoráveis são publicados e divulgados. Estudos com resultados neutros ou decepcionantes acabam… na gaveta. Ninguém tem interesse em divulgar que uma linha de cuidado não deu o retorno esperado.

Some isso a outro fator: a contabilidade seletiva. Empresas e fornecedores de soluções de saúde tendem a divulgar apenas os cálculos que os favorecem. O resultado é um mercado inteiro de estatísticas de ROI que parecem consistentemente ótimas, porque só as boas chegam até nós.

Não é coincidência que vemos números como “cada R$1 investido retorna R$5, R$8, R$16″… vindos quase sempre de quem vende a solução. Somado a isso, não existe um consenso sobre o que “conta” como ROI. Benefícios monetários e não-monetários são igualmente legítimos, mas a forma de mensurar isso ainda é cheia de ambiguidades.

O que isso significa na prática? Não que ROI seja inútil ou que linhas de cuidado não funcionem. Significa que devemos olhar esses números com mais ceticismo saudável, perguntando quem calculou, o que foi (ou não foi) incluído, quais as variáveis confundidoras e se existe alguma gaveta cheia de resultados que não vimos. Por isso, o embasamento nas melhores práticas e evidências científicas é tão relevante. Ele desloca a conversa de “quanto essa linha de cuidado promete retornar” para “o que de fato mudou para quem passou por ela”.

É aqui que os desfechos de saúde entram. A utilização de instrumentos validados que capturam, na perspectiva de quem foi atendido, se sintomas e funcionalidade realmente melhoraram, aplicados antes e depois do cuidado. Importante, também, medir a experiência do cuidado em si: acesso, acolhimento, clareza, se a pessoa se sentiu ouvida. Juntos, eles trocam uma projeção financeira genérica por evidência clínica, comparável entre diferentes linhas de cuidado, e muito mais difícil de maquiar do que uma conta de “economia estimada”. Não eliminam o file-drawer problem, mas tornam mais evidente o retorno em saúde deste investimento e podem ser o pontapé inicial para cálculos mais robustos de ROI em saúde. A partir disso, sim, trazemos dados de custo no plano de saúde, absenteísmo, entre outros, com comparativos antes e depois e com grupos que utilizaram e não utilizaram a linha de cuidado. 

Referências

Hawrilenko M, Smolka C, Ward E, Kavelaars R, Brown M, Chekroud AM. The Impact of Enhanced Behavioral Health Services on Total Healthcare Costs Among US Employers: A Site-Level Analysis of 19 Cohort Studies. Journal of Health Economics and Outcomes Research. 2025;12(1):246-251. doi:10.36469/001c.138634

Thusini S, Soukup T, Henderson C. Return on investment from quality improvement programmes in mental healthcare: a Delphi study on conceptual uncertainty and ambiguity. BMC Health Services Research. 2025. doi:10.1186/s12913-025-13484-0

Rosenthal R. The file drawer problem and tolerance for null results. Psychological Bulletin. 1979;86(3):638-641. doi:10.1037/0033-2909.86.3.638

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